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Dia de lirismo

Há uns anos tive   a sorte  de  conseguir  a poesia completa de João Lúcio ( edição da INCM, claro), o único  que Pascoaes considerava  à sua altura. Já o trouxe aos blogues um par de vezes, porque fico sempre rendido.  No  meio do enjoativo  êxtase lírico, encontro coisas que só podem ser desenhadas nesse registo:

Como a floresta, meu amor, eu tento, Atirar meu canto pra a altura: Para a fazer cantar, toca-lhe o vento, Pra me fazer cantar , no pensamento, Passa o sopro da tua formosura.

( Na Asa do Sonho, 1913)

PSD ( 10)

O partido está exactamente onde a coligação de governo o quer: a discutir a vida sexual das tartarugas. Saber se é mais à esquerda  ou menos à direita, se cai para o centro ou para periferia, se é laranja ou preto. Em linguagem tauromáquica isto é pôr o toiro nos médios. A jeito do cavaleiro.
Quando uma organização política com um líder demissionário, minoritária no parlamento,  em queda nas sondagens e trepanada nas autárquicas se põe a discutir a sua matriz política, tal pode significar uma de duas coisas:
a) não sabe o que é b) tem medo de ser o que é.

Ambas as hipóteses  são arrepiantes. A alternativa só pode passar  pela inovação.  Darwin nunca disse que os mais fortes sobrevivem,  disse que os que se adaptam  às modificações do meio sobrevivem:
1) Um dos  processsos inovadores terá de consistir em redesenhar a base de apoio. O famoso aparelho regional  é uma recordação. Os autarcas baldeiam-se de partido conforme o vento e o novo estatuto de independentes. Por outro lado, erradic…

Muqaddimah*

"A  sociedade humana  culmina na fundação das  cidades, a vida sedentária  é o término e a corrupção da civilização;  esta, consequência natural da cooperação,  constitui um mal em si mesmo e é, no processo de toda  a evolução social, o princípio que mata (...). O ciclo de uma sociedade acaba; nascida no campo, frutifica  através da conquista de outros grupos, que reúne sob a sua soberania, e morre na cidade, fundada como residencia do poder político. (...) Os semi-selvagens - os bárbaros  nómadas - são os únicos homens dotados de condições para conquistar e dominar. Na cidade, no Estado já constituído,  perdeu-se a coragem, porque se vive com excesso de segurança".
(* Prolegómanos, c. 1373, de  Ibn Kaldhoun, aka bin Khaldun, Ibn Jaldún,  etc)


A última frase é terrível, não é? O excesso de segurança aniquila a coragem? Sempre que releio esta passagem lembro-me de A Toca, do Kafka.

PSD ( 9)

Os defesas centrais da posição de princípio, como o PCP chama ao seu acordo com o PS, são os media. Se o partido escolhe um político que tem fama de má relação com os jornalistas, ninguém levara  a sério o combate que é preciso travar. Significa isto que é preciso  acamaradar com as legiões saídas dos cursos sobre Lukács, Foucault e Zizek?  É exactamente o contrário.
Com Debord. A classe ideológica totalitária no poder,   hoje ,em Portugal, é o poder de um mundo invertido: quanto mais ela é forte , mais ela afirma que não existe. Esta ideologia transformou policialmente  a percepção das coisas. Tal como os partidos de protesto - o Bloco (que Pacheco Pereira designava como meramente tribunício) e o PCP -, os media são hoje burocratas da mentira que pretende  desenhar uma sociedade espectacularmente diferente da do período da troika.
Acabaram assim as notícias sobre  a desgraça do SNS ou  sobre os mendigos que dormem na rua; as greves passam a ser más e politicamente orientadas, ou sej…

O grande Rodrigues

Só os estúpidos não mudam. O Rodrigues não é estúpido.
Foi do Sporting até aos vinte anos. Ia a Alavalade ver os jogos, emocionava-se com a linha avançada: Keita, Jordão e Manuel Fernandes.  Depois conheceu a  Sofia. O futuro sogro, um juiz severo  mas apaixonado pela bola, era do Benfica. Rodrigues aprendeu as maravilhas de outra linha, Magnusson e Rui Águas , e passou a ir para o camarote da Luz, o maior estádio da Europa.
Na faculdade enturmou-se com uns amigos, sobretudo o Orey, e assinou a  ficha do CDS. Envolvido na política estudantil, fez figura  pela maneira  leonina como atacava os comunistas que tinham matado  Amaro da Costa. Viajou  com o partido a Bruxelas e Paris, fez-se homem. O cavaquismo desiliudiu-o num tempo em que dava aulas no secundário. Aplicado e estudioso, estabeleceu laços frutíferos com o Ferreira, sindicalista da UGT, católico e homem bom.  Quando Guterres concorreu fez-se-lhe luz.  Num dia claro e límpido filiou-se no PS e na UGT. Chegou a deputado pelo s…

Toda a...

Armindo Rodrigues, uma vez mais. Anda esquecido, bem sei, como muitos poetas portugueses, mas aqui será sempre convidado.  Médico, tradutor,  homem da Vértice e da Seara Nova,  militante comunista. Morreu em 1993 sem uma evocação nos jornais. Neste livro,  uma poesia marcada pelo tempo, gongórica e arrebatada, mas  em Quadrante Solar tem isto, que  é de  uma beleza hermética: Toda a justiça é injusta, porque julga,
toda a ordem desordem, porque impõe,
toda a verdade errada, porque muda.