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A mostrar mensagens de Setembro, 2017

Sexo, poder e gatafunhos ( 2)

Uma caçadeira na  fanesga. Parece uma caricatura da máxima de Wilde ( tudo na vida é sobre sexo excepto  o sexo; sexo é sobre poder), mas há lá mais qualquer coisa.
Começa pela ignorância  geral sobre armas. Quem fez a tropa e tem uma cabeça normal aprende que elas não são assim tão engraçadas ( a G3 pesa como chumbo  no final do dia de instrução), mas também que são muito perigosas. Uma vez, na instrução de tiro com pistola, um idiota virou-se para nós brandindo a coisa barafustando que estava encravada. Isto  enquanto tentava dispará-la, ou desencravá-la no seu cérebro de toupeira. O instrutor quase se urinou e nós também.
O fetiche ( feitiço) da mulher  exigia uma arma carregada. Esta é a parte  sumarenta.  Uma mistura  de loucura  com ordalismo de base.  Infelizmente, a verdade deve ter sido  menos entusiasmante. O álcool e  as drogas toldaram  o  tino. Pouca coisa rija fazemos sem as drogas ( tenho depressivos que só conseguem levar os filhos à escola com sertralina).


Sexo, poder e gatafunhos ( 1)

Psicanálise de um pedófilo:
Gilles était animé par un désir terrifiant d’avoir sa mère en lui, de la porter dans son ventre, d’être enceinte d’elle – en bref, d’être pénétré par elle.
Não sei se sabem, mas os Gilles  nunca dizem estas coisas: os psicanalistas é que falam  por eles. E a fala é sempre com os mesmos  malhos:  continente-conteúdo, depressão latente, galáxia narcísica etc.

Cayo Lara, o comunista fascista segundo António Guerreiro

De mal  a pior, António Guerreiro. Desta vez não mete Agamben na sopa, mas dedica uma coluna inteira a Henrique Raposo. Devia estar  sem assunto. O pior é a bambochata : a caça é fascista. A caça  glorifica a morte, Deleuze, blá blá, fascismo. Depois os colhões  e a masculinidade ( Guerreiro desconhece  as histórias de mulheres caçadoras) blá blá. Termina com o paralelismo do dispositivo  zoo-antroplógico : o mesmo que serviu para o extermínio dos judeus. O comunista espanhol Cayo Lara e Manuel Alegre, por exemplo,   passam assim à condição de cripto-fascistas enfeitiçados  pela  trajectória  do tiro e  morte do animal
Nada de estranho se a crónica tivesse sido escrita por um tolinho. AG não é tolinho, por isso a conclusão é sombria: chamar fascista  ( o alvo de AG até pode ser, isso  não está em causa e pouco  me importa) é o labéu herdeiro da psiquiatrização  dos opositores.

O Abelha

Estudava pouco, mas, ao contrário de outros, não se interessava por futebol nem por miúdas. O que lhe arrebitava as orelhas era ser  delegado de turma. A responsabilidade, o ganho de confiança dos colegas,  o acesso à sala de professores e, de vez em quando, ao gabinete do director da escola. Aos quinze  organizou  as primeiras escolíadas, um ano depois chefiava uma lista à associação de estudantes. O pai fazia-lhe resumos de princípios políticos que ele decorava. Entestou uma colecção inteira de histórias de grandes políticos europeus de um conhecido semanário.
Caiu nas graças da  organização de juventude do partido ( todos lá em casa eram do partido) e passou três  anos agarrado ao telemóvel e a fazer recados ao seniores. Aos vinte foi eleito  primeiro-vogal da comissão política nacional. Entrou na faculdade mas não tinha tempo para copiar, por isso dedicou-se ao partido. Teve algumas namoradas que o acahavam um xuxu ainda que um bocadito enfadonho.
Aos vinte e cinco anos,o sol rai…

Uma fórmula

Uma convidada habitual,  Christina Rossetti. Filha de poeta ( um maná para os psicanalistas), escreveu toneladas e recusou pelos menos três propostas de casamento.   Namorou a feminista Portfolio Society, organizada por Barbara Bodichon, tanto quanto foi descrita  como uma quase  fanática religiosa. Não é rigoroso dizer-se que pertenceu ao movimento pré-rafaelita, mas andou lá perto.  O que importa é que era boa como o  milho:
Still I find  confort in the Book, who saith, Tho, jealousy be cruel as the grave, And death be strong, yet love strong as death. ( 1881)

O Benfica: considerandos alodiais

Quando o galho é dobrado, a árvore inclina. Os rivais deixaram de fazer  ( tantas) asneiras. O FCP teve seis treinadores em quatro anos e comprou  87635 jogadores. JJ  e o  parolo  não têm mais margem para inventar,  até porque se o novo amigo portista for campeão  lá se vai a desculpa do polvo benfiquista. O galho dobrou.
Fui dizendo e repito: o Benfica de Rui Vitória não controla o jogo, está sempre em pré-época com 76357635 passes errados  por desafio, joga como uma equipa pequena. Começa os jogos com 36 milhões de euros no banco ( Jimenez e Rafa), mas apresenta laterais  dignos do Paços de Ferreira. No ano passado chegou, este ano a árvore está  a inclinar.
Dito isto, o que me resta? Já me habituei. Converti-me. Ainda ontem vi o jogo como se fosse o Gil VicentexCSKA. Gostei, batemo-nos bem. Vou apoiar  o RV e os jogadores até ao fim, vou gritar cada golo como  uma proeza inesperada. A maçã não cai  longe da árvore.

PSD ( 5)

A AD original durou um ano e dois dias:  entre as intercalares de 79 e a morte de Sá Carneiro. O resto do tempo foi a desgraça que se sabe, com Freitas a considerar um desaire eleitoral a vitória  nas autárquicas  ( uns míseros 43%....) e Marcelo Rebelo de Sousa e Cavaco a montarem  com minúcia um campo de minas. A segunda AD foi o Portugal à Frente que arrecadou 38%, o mesmo que Passo Coelho  tinha conseguido  sozinho  quatro antes. Nem aqueceu o lugar. Pelo meio, duas cripto-AD's: a de Durão Barroso, que terminou no edificante episódio  da ida para Bruxelas, ( o resto foi um estertor)  e a pós-eleitoral com o CDS do irrevogável Portas.
O Diabo consegue por vezes fazer coisas cavalheirescas, dizia o Stevenson, mas o partido talvez não necessite de vender novamente a alma.

A minha Carla

A minha Carla já tem quarto  no  lar da sociedade  recreativa, um quartinho todo arranjadinho e tudo combinado para quando eu já não andar por cá, não sei se percebe, claro que percebe, todos temos de morrer não é verdade?  Desde que o meu marido morreu que não penso noutra coisa, em deixá-la ataviada, deixá-la bem. Eu já mal me posso mexer sem estas amigas debaixo dos braços e estes trambolhos que já foram pernas. Foi sempre fraquinha, a minha Carla, dantes eu costumava dizer que ela era como o   almece com que se faz o requeijão. Sempre, sempre, sempre... desde que lhe deu aquilo ainda mamava. Os doutores que corri... nem imagina: Covilhã, Fundão, Viseu, uma cecameca. Seja como for, já estou mais descansada.  A minha vida foi assim, o meu homem doente durante anos, a Carla coitadinha sempre  doer-me  a alma, mas sabe, vivi pela graça de Nosso Senhor e fiz o que pude. Não , não diga isso....grandes mulheres são as outras, as que estão na política, as que trabalham e têm filhos, as q…

PSD ( 4)

Tenho muita pena, mas, como dizia o Orwell, as coisas mais evidentes estão sempre  debaixo  do nosso nariz: Passos Coelho  é a garantia da geringonça. E por dois  motivos:
1) Escrevi na altura, como muita gente, que  Sócrates devia ter governado  com a troika uma vez que foi ele que a chamou. O PSD  alcagoiteiro não entendeu assim, o PSD bem intencionado idem. Foi um erro monumental e indesculpável. Sabiam perfeitamente o que seria governar cortes, sabiam de cor e salteado que  todo a pobreza do país abriria os telejornais ( os sem-abrigo  e a velhinha desalojada desapareceram dos écrans  depois  de Dezembro de 2015). Ou seja, sabiam que ficariam colados ao instante, porque,   se  a traição é uma questão de datas,  a memória é um panfleto.
2) Depois, a geringonça em acção. Se as coisas estão mal é culpa dos anos de cortes, leia-se, do PSD. Quatro anos de prazo de validade tem este filtro de Dejanira.  Se as coisas melhoraram, cuidado porque com o PSD regressam os cortes. Estudantes, pe…

O marquês

Rodrigo Gondesendes de Trava e Azevedo  ( abreviando)  é o esterótipo do  nobre remediado. Não passeia nu sob um  casaco de zibelina, como os velhos condes polacos falidos, mas  já não tem carro. Vive num pequeno apartamento de duas assoalhadas ao lado de um hipermercado.  Aos sessenta e oito anos só escapa a este mundo quando a prima o leva, uma ou duas vezes por ano, ao velho solar  de família. Dói-lhe ver as silvas e o telhado  esburacado, mas consola-se na memória das paredes. Recolhe-se na pequena capela e pergunta-Lhe qual o sentido de tudo aquilo. Não teve uma infância feliz, reconhece agora. Quase não via os pais e menos ainda conviveu  quando fugiram para o Brasil naquela coisa dos comunistas.  Eles tiraram-nos tudo foi a régua que o acompanhou na adolescência.  Valeu-lhe conhecimentos e anqueos familiares   na normalização, mas o lugar na dierccção-geral enfiou-o numa semi-existência. Memórias e despeito. Ainda assim sobreviveu ou não fosse descendente de bravos ricos-homen…

Zé Charruço

Deito o fogo   sim,  por que não haveria de deitar? Quando já dei na borracha toda noite  e estou sozinho com dua cabras e uma televisão  que nem dá o Benfica.  Comi uma lata de atum e duas cebolas. Não que  não tenha dinheiro -  até tenho algum -, mas aqui no casal não há restaurantes. E para fazer compras no Lidl é preciso rodas e já não tenho carta  faz mais de dois anos.Você está na sua casa da cidade com elevadores e uma gaja quentinha na cama à espera.  Que  não sei o que faço? Uma porra é que não sei. Quem não sabe são os bombeiros, até as televisões dizem. Sete por nove ruas e ainda vão apertados. Não estou aqui para contar arolas. Em certas meadas, já entornado , no meio do mato como vivo, olho para a serrania  e dá-me para meu lado bargantão. Quero foder  aqueles cabeços todos, quero que fiquem fodidos como eu estou.  Não é do fogo que gosto, não lhe tenho tenças, até me mete medo. É de dar cabo de tudo, de ter a coragem de dar cabo de tudo. Quando acordo a sol alto no dia …

Evolução

Quando o Pingo Doce abriu ia de carro aos sábados, que era quando tinha vagar.
Depois de se reformar  ia três vezes por semana em passo estugado. 
Há dois anos começou a ir todos os dias, um saquito leve  em cada mão.
De há uns meses para cá voltou a ir uma vez por semana, arrastando  um trolei.

PSD (3)

O que o partido tem pela frente é uma...frente. Exceptuando o PCTP-MRPP e o MAS, que não pesam na mochila,  toda a esquerda. Toda mesmo. De ex-UDP's/PSR's aos advogados de negocios socialistas, passando pelos pet lovers e pelas ossadas da ortodoxia comunista. Se juntarmos a isto os exércitos de jornalistas saídos dos mui plurais cursos de comunicação social, temos os media nos flancos da frente, sobrando um jornal electrónico ( O Observador)  e os pasquinsCM e Sol. Marcelo flana, como sempre fez, ao sabor do vento. Nenhuma surpresa. A talada de toucinho na sopa bacorinha é fornecida pelos anos da troika, dos quais  o miniver oficioso  eliminou a gestação socialista de  Sócrates  para ficar só com o parto de fórceps do sádico obstetra Passos.

É muita coisa. Seria de esperar que o partido assimilasse a nova configuração, mas não tem sido o caso. A primeira coisa a fazer seria reconhecer a frente como ela está: unida e coesa. Isto implicaria seguir um dos princípios do testament…

O velho revolucionário

Mateus Uva, 55 anos,  professor de História, divorciado, dois filhos, natural de Alcobaça, residente em Lisboa. A História é a luta eterna entre senhores e servos. É pelos servos, para que deixem de ser servos e passem a ser senhores de si próprios. Para isso é necessária a revolução. Simples. Nos dias de hoje, Mateus Uva continua  a acreditar num mundo melhor. Venezuela e Coreia do Norte são faróis estelíferos, como  foram outrora  a URSS, Cuba ou o Cambodja. O amor ao povo e  a defesa dos oprimidos move Mateus Uva. Por vezes é interrogado  pelo seu filho mais novo sobre a opressão existente  nos faróis estelíferos. Puxa do caderno de Preobrazhenski e balbucia:  a felicidade pessoal, como o  amor ou o sexo, são reflexo  de falta de fé no futuro da revolução. O miúdo leva  a cadeira de rodas  para o pé da janela e coloca uma manta sobre os ombros do pai. O futuro - pensa - é muito tempo.

Previsões

I must go in, for the fog is rising,  terão sido as últimas palavras escritas por  Emily Dickinson antes de morrer ( de nefrite). Poderão  ter sido a memória de uma velha  lengalenga familiar "it was already growing damp”.
Em There's a certain Slant of Slight ( 1951):

When it comes, the Landscape listens –  Shadows – hold their breath –  When it goes, ‘tis like the Distance On the look of Death –