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A mostrar mensagens de Novembro, 2017

Terapia ( 9)

Uma janela de 12 anos ( 2000-2012) : o consumo de antidepressivos triplicou. Umas das consequências é a miséria sexual. Outra é a narcotização legalizada:
O que é espantoso é que a maior parte das depressões não o são. As mais das vezes são estados de tristeza ou de revolta com situações  normais: rupturas amorosas,  cizânias familiares,  problemas laborais, falta de autonomia. Outra consequência letal é que muitos  dos adultos movidos a venlafaxina ou sertralina têm filhos e deixam de ser capazes de se mover na página  da vida. Funções e  papéis passam a ser desempenhados sob a acção de química exterior.

Mais vale calada um dia do que não progredir toda a vida

Entendeu-se que "não é imprescindível conhecer, exatamente como está descrito e com identificação das pessoas, aquilo que se passou."
Não é censura, é só não conhecer, exatamente como está descrito e com identificação das pessoas, aquilo que se passou. Censura seria não conhecer, exatamente como está descrito e com identificação das pessoas, aquilo que se passou."

O tempo dela

A açorda não é molecular-michelin-pato bravo. Por acaso até é, mas eles não sabem. Ainda não os autorizaram.
Instala-se o frio na casa como um velho amigo para um dedal de Lagavulin. O almoço tem então de ser bom, quente e fiável, mas não demorado. Se por acaso há jantarada, tambem a bela açorda se apresenta como Geraldo-Sem-Pavor à mourama. É preciso é ter amor à coisa. Deixemos de lado declinações  ( bem boas) como  as  migas ou o torricado e vamos a ela.
Pão, azeite, alho, caldo, conduto e ervas. Com isto o mundo é nosso. Se tiveres berbigão vivo, a coisa é tão simples que até dói. Se foste agraciado com um pão  como o que compro em Cavaleiro, S.Teotónio, não precisas de mais nada  a não ser coentros, poejo  e um queijo seco de ovelha para lascar entre colheradas. Por alturas de Junho, com tomate  de lei, faz-se uma vegetariana de alto lá com ela. Com camarão da costa, depois do caldo das cabeças e das cascas bem apurado, dois ovos lá dentro e é bailar. E por aí adiante.
A açorda …

Terapia ( 8)

Fui ao engano. Isto não é nada maluco. A minha lista:
1) Há uns  anos, tive um pré-adolescente em terapia. O garoto não levantava  a cabeça. Fiz uma  sessão inteira deitado no chão, com  a cabeça aos seus pés. Na sessão seguinte ele veio e funcionámos normalmente. A mãe perguntou-me se era verdade que eu tinha estado no chão  uma consulta  inteira. Expliquei-lhe que era uma técnica, muito comum, inventada pelos japoneses.
2) Já contei noutro lado. Por vezes a sessão está mais morta do que  a caridade, porque a pessoa resolve passar um tempo agradável em vez de trabalhar. Tenho sempre em cima da secretária um monte de livros e papelada. De repente varro tudo para o chão. "Já tenho a sua atenção?".
3) Quando o Benfica foi tricampeão ( o 1ºano do Rui Vitória) , pus na marquesa preta um um urso de peluche do Benfica  ( dei-o ao meu filho mais velho quando nasceu). Durante umas semanas usei-o quando alguém chorava. Levantava-me, ia buscá-lo e entregava-o à pessoa. E assim ficávam…

Começou no metro; que estamina...

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Terapia ( 7)

Beauvoir had been a serious disappointment, flouncing out of the room in a cloud of opinionated babble about Islam and the veiling of women. At the time I did not regret her absence; later I was convinced she would have livened things up. Sartre’s presence, what there was of it, was strangely passive, unimpressive, affectless. He said absolutely nothing for hours on end. At lunch he sat across from me, looking disconsolate and remaining totally uncommunicative, egg and mayonnaise streaming haplessly down his face. I tried to make conversation with him, but got nowhere. He may have been deaf (...).
Said continuou admirador de Sartre  (tenho pena que não tenha conhecido Camus, isso é que teria sido um belo debate sobre a a Argélia e  a FLN), mas o osso aqui é outro. Fantasiamos sobre gente que não conhecemos  ou que já não vemos há muito tempo. No outro dia reencontrei no gabinete uma mulher que ajudei a há coisa de doze anos. Fiquei desconfortável porque guardei uma imagem que já não c…

Terapia ( 6)

E quando um  tipo não está para ouvir pessoas? Nunca me acontece. Nada de precipitações: muitas vezes a  cinco metros da clínica ainda estou nesse estado.  Almocei bem, fiz a sesta e apetecia-me ficar a ler coisas inúteis. Costumo ir a pé. A cabeça vai-se ordenando. Os hábitos escolhidos  são  da autonomia ( já dizia o doido do Deleuze) , afastam-nos do comportamento aditivo e da obsessão.  Quando acabo, pelas nove e meia da noite em média, tenho o hábito de ir para casa. É uma rotina escolhida: quero ir.

Focus Avero ciência política de casaco de serrobeco: perguntas

Enquanto não encontro uma com "Tonito"

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Lalangue hipócrita

Jogo de sombras

Se repararem bem, a estratégia permanente é a da ocultação. É  nos fogos como é nas  cativações, nos guardas prisonais ( situação caótica),  no SNS   ( notem a dialéctica azaradosxsortudos) etc.
A explicação não é complicada. Governa-se em austeridade como se se governasse mo tempo novo. É para isso que PCP e Bloco  lá estão: anulam-se as rosnadelas e asseguram-se media compinchas que já já não fazem reportagens  neo-realistas sobre  mendigos a morrer de frio. Em troca recebem  os recursos essenciais à manutenção da sua clientela política ( sobretudo funcionários públicos).
A ocultação nos fogos parece de outra dimensão mas não é. A ideia de que tudo está bem, ou pelos menos não tão mau, tem de passar sempre. A geringonça, não sei se já esqueceram, é uma solução milagrosa, sem igual nesta e noutras galáxias e copiada por mil universos.

Terapia ( 5)

Às vezes tenho de dizer alguma coisa  que sei ser susceptível de má interpretação. Ou porque a pessoa não a quer ouvir ou porque é especialmente delicada. Então recorro à técnica  do encurtamento de espaços. Inclino-me bem para a frente,  tranco o olhar na pessoa e sorrio enquanto falo.  As reacções são esclarecedoras. Umas suportam o olhar e retribuem o sorriso: aceitaram. Outras  quebram o olhar e ficam em silêncio: vão refilar no minuto seguinte. De qualquer das formas,  a mensagem chegou ao destinatário. A aproximação, um sorriso e  o contacto visual directo  convencem a pessoa de que o que arde cura.

É isto

Tem toda  a razão o Pacheco Pereira: o PSD está radicalizado. Onde já se viu quererem comemorar a vitória de Mário Soares  sobre os  novos Lenines?

Terapia ( 4)

A depressão não se cura. Por isso existem os antidepressivos, para podermos viver com ela. A depressão ou é sustentada num défice neuroquímico ou é ligada a um acontecimento. Nenhum tem cura. Fiquemos pela última causa. Se aconteceram coisas na vida da pessoa que a deprimiram, é porque foram suficientemente fortes para isso. Não mudamos o passado. O negócio é aprender a viver com a depressão. É um preço justo para ficar vivo. Há quem não aceite. É compreensível. Essa pessoas têm de ser  ajudadas a aceitar. Fortalecer os laços bons, iluminar as partes sãs,  mostrar-lhes que afinal são resistentes: ainda não desististe pois não?

Diz que era

Do emails  do Guerra.
Mafiosos serão sempre mafiosos; e divertidos.

Terapia ( 3)

Trabalha  numa confeccção, tem um filho pequeno. É ruiva, gorducha e  e sorridente. Conheço a patroa. Chega  a casa às sete  da tarde com tudo por fazer.  Se o marido está no turno da manhã tem ajuda, senão faz tudo sozinha. Às dez da noite está morta. O sábado é para lavar, passar, limpar. Aos domingos recupera  o sono. Sobra-lhe  a tarde. Vão passear a prestações. Ganha num mês o que o campeão dos  socialistas gastava num jantar. Saúde mental é um eufemismo para morte lenta. Vive-se a sertralina.

Terapia ( 2)

Os mais difíceis são os cachorros abandonados.  Um pai mau, um marido  egoísta, um patrão negligente. Choram baba e ranho, normal, o problema é que têm uma carapaça. Estão convencidos de que  uma injustiça  mortal se abateu sobre eles. A vida que vão vivendo confirma a certeza. É um ciclo vicioso. O trabalho é de dentista. Tratamento de canal moroso, restauração frágil. São os mais difíceis porque  resistem à terapia. Habituaram-se à incompreensão do mundo, não sabem viver sem ela.

Terapia ( 1)

Um  teste  da empatia que costumo fazer: conseguia sentar-me à mesa  do café cinco minutos com esta pessoa? Com muitas sim, com algumas nem cinco segundos.
O psicoterapeuta não se queixa. Se as putas conseguem, não sou mais do que elas.

A batalha de Montecatini

Dino  começou a fazer sucesso na faculdade. Num tempo de esgotamento das dicotomias, recusava o capitalismo, o socialismo, o liberalismo, o fascismo e o comunismo.  Comprou um livrinho do Reich, leu-o e assumiu o sexualismo. Dino abominava o masturbacionismo. O tempo foi passando. Em tertúlias, blogues ( nesse tempo ainda não havia o twitter), seminários, conferências com convidados de alto-lá-com-ele, Dino explanava.

Todos os problemas do mundo começam na tensão sexual, explicava. A quarentona  mais apagada, a adolescente mais  insegura, o homem mais neurótico , todos podiam ser saudáveis se  praticassem o sexo sem restrições com todos.  A luta tinha de ser travada nos elevadores, nos McDonald,  nos semáforos. Abaixo as grilhetas  do registo civil ou o tabu da diferença de idades. O sexo permanente, incansável,  metódico, era  a única forma de progresso da humanidade no caminho da paz e da redenção. Desprezava os movimentos  hippie e os festivais  rock e da igreja católica: eram redu…

A mão e o chicote

Fazer uma razia nos principais  postos  da administração  com o exército e a polícia  a guardar as costas, lamento, mas não me cheira a renovação nenhuma. Excepto, claro, a da mão que segura  o chicote. É um clássico das alterações nominativas do poder, não da mudança  do regime.
Um apoiante fervoroso  de João Lourenço escrevia, em Junho ultimo,  isto :
Perder, perder, perder, são as vozes que definem a oposição angolana, todavia, com vista a afugentarem – se do cheiro da vergonha que da derrota advém, fazem da teoria da conspiração o veículo capital para vender inverdade à gente menos esclarecida sobre o pleito eleitoral angolano.
Agora escreve isto:
 A chama do progresso que o Dr João Lourenço tem por acender, continuará acesa sob sucessões de gerações.

O tempo dele

Do bacalhau. Há muito que o deixei de comer em restaurantes. Os maus fazem-no  mal, os  arrepenicados usam o fresco.  Sim, já quase não há seca natural, o de cura amarelo é muito caro, vamos ao vulgar de Lineu:
1) A compra.  Seja onde for, o bicho deve ser como um velho beirão : seco, rijo e feio. Dobre o rabo: quanto mais resistir, melhor é o gadídeo. Os pequenos  não interessam a ninguém.
2) A demolha. É o processo vital. Todos os erros começam aqui. Separe as peças ( lombos, asas e rabo) e lave-as do primeiro sal. Depois a 1ª demolha em água fria consiste em  três mudas em sessenta  minutos. A seguir, frigorífico e mais três demolhas em 24 horas. O processo deve ser rápido e frio. Isto não é sexo, é bacalhau. A peças grossas por cima, as magras por baixo, como é óbvio. Antes de terminar, namore com o bicho. Tire uns fiapos crus  e prove. O seu gosto pessoal do salgado  é que manda. Eu gosto dele bravo.
3) Se para bolos, pataniscas, à Brás e à Gomes de Sá  deve ser usado cru, como qua…

Por isso

É que só falo dos emails do Guerra com portistas com menos de 30 anos. Os outros, os neosonsos, que  vão lamber sabão.

Não são urban nem beach

Isto dura há anos, mas os betos humanistas e os príncipes do estado de direito não andam de autocarro nestas linhas.

A segunda Tripla Aliança

A coisa começou por uma brincadeira. Estavam  a jantar uma deliciosas almôndegas de tofu e cenoura e Érika  lembrou-se provocar: Rodrigo Miguel, quando temos sexo isso não é uma forma de exploração animal? Ele olhou-a, meio  atoleimado, mas continuou a comer. Érika  embalou: Sabes muito bem que não defendemos apenas  a vida  mas  também a qualidade de vida. É por isso que não entra leite  cá em casa.  Ora, diz-me cá, os filmes porno não são, quer dizer, obviamente....uma forma de exploração animal? Rodrigo  Miguel tentou meter o Lucas na conversa, mas o labrador, muito bem sentado à mesa, apontou o   focinho para os talheres. Érika, querida, - suplicou- sabes que  estou contigo a cem por cento, mas acho que estás a exagerar. Ou queres viver  como manos? Érika reconheceu um bom ponto. Ajeitou com ar pensativo o babete do Lucas. À noite, no sofá, enquanto viam televisão morta, Érika resolveu: Rodrigo Miguel, a partir de agora vamos experimentar só tocar-nos em frente do outro. Tocar-no…

A paz de Tyrnau

Rubina  Miguel , a  Reguladora Auxiliar para o 5ªBairro, recebeu-a no seu gabinete.  O assunto era simples. Guida queixou-se da existência excessiva  de mulheres-objecto referentes da inscrição na lógica de poder  da textualização estereotipada.  Rubina sacudiu os pulsos, sorriu ao de leve e mostrou-se interessada. O problema era a concorrência desleal. Guida  tinha optado por um corpo livre dos estereótipos: pesava 83 kg e não se depilava. Exigia que a Reguladora  estabelecesse uma quota: um terço das mulheres do bairro teriam de ser  livres da coisificação dominante. Rubina concordou. Era inadmíssivel que um bairro  tardo-moderno, integrador e exemplar no respeito pela diferença  obrigasse mulheres como Guida a ser uma ave rara.  Referiu, no entanto, que  essa medida poderia ser difícil de implementar.: não podiam  obrigar essas mulheres livres a vir para o bairro. Guida voltou à carga.  Em nome da igualdade no acesso aos mecanismos da sedução igualitária, a solução passaria por  i…

A Convenção de Moss

Renata Soraia saiu do face e pousou o telemóvel. Como era possível? Estaria tudo  louco? A Bruna Carla tinha  feito três likes na foto do seu namorado. Do seu... do dela, Renata. Três likes? Um like ainda vá, e já era muito,  aquela lambisgóia não tinha vergonha na cara. Agora: três? Aquilo exigia medidas  de fundo. Começou a sentir a cabeça à roda  e difuldade em respirar. As mãos pareciam enguias. Foi ao quarto dos pais  e tirou da gaveta da mesinha de cabeceira  da mãe um diazepam. Ia  fechar  a gaveta quando viu, debaixo de um par de lenços, um coisa preta e mole, parecia um cinto. Pegou na coisa e horrorizada  percebeu que era um dildo. Estupidificou. Para que  raio queria a mãe um dildo? Voltou para o telemóvel e pesquisou dildos em casais hetero.  Não chegou a nenhuma conclusão aceitável, mas não desistiu. Lembrou-se de pensar. O pai tinha quarenta  e dois anos. A mãe  se quisesse  , enfim, divertir-se sozinha, não seria com um dildo. Renata era  consciente da existência de vi…

O Tratado de Forte Stefano

Miguel Soares bateu à porta dos Andrades. Vinha animado de uma intenção escrupulosa. O Andrade tinha uma mulher  lasciva, quase todo os  dias a via.  Tresandava  a sexo. Um rabo  de sonho e uma boca pequenina e sorridente. Trinta e tal anos. Não podia ser. O Andrade abriu a porta, compreendendo  logo do que se tratava. Havia sinais.  Miguel foi direito ao assunto. Era indecente, e má vizinhança, uma mulher daquelas ser só para um homem. A sua mulher - sublinhou Miguel - era um saco de batatas enrolada   em arame farpado. Ele tinha direito a não ser provocado daquela forma. O Andrade  simpatizou. Debateram-se soluções. Miguel reforçou a exigência. Era socialmente injusta  uma tal política do tesão. O Papa já apelara diversas vezes a uma correcta distribuição dos recursos.  O Andrade declarou-se igualmente admirador do Santo Padre e seu  seguidor no twitter. Faltava ouvir Anabela Andrade. A mulher entrou na sala e foi posta ao corrente das conversações. Acendeu um cigarro electrónico. …

Pequeno intervalo