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A mostrar mensagens de Janeiro, 2018

Canabis: projecto canadiano

Este artigo sobre o Cannabis Act é bastante completo e interessou-me, sobretudo,  a criação do mercado ( pp 8), ou seja, o controlo da produção e da distribuição. Assistir à  a primeira regulação nacional ( federal  no caso) do consumo de uma substância psicoactiva é um desafio formidável.
O actual estatuto  das drogas demorou , entre o balão de ensaio filipino ( 1908) e a Single Convention de Nova Iorque ( (1961) , cinquenta  e três anos a ser preparado.  As primeiras tentativas - conferências de Xangai ( 1909) e Haia ( 1912) -, apontaram a direcção que Harry Aslinger, o patrão do FBN ( Federal Bureau of Narcotics, o pseudo-antepassado da DEA) , durante os anos 30 e 40, seguiu: controlo da produção  e interdição do comércio. As proibições do consumo foram as telhas, e as últimas , do edifício.  A conferência  de Geneva, em 1931, oficialmente  cunhada,  e não por acaso,  como  Conference  on the  Limitation and Manufacturing of Narcotic Drugs,  tocou nos mesmos aspectos que o p…

Terapia ( 14)

No debate recente sobre um programa de TV ( não é o tema aqui), registei duas  recorrências infelizes: a) o determinismo da educação parental b) o carácter unívoco da educação
a) A educação, o ambiente cultural e emocional em que criamos os filhos,  é apenas uma peça do aparelho que eles vão construindo  para as ( várias)  fases adultas. Noutros tempos seria porventura mais determinante, hoje nem pensar. Ainda mais sujeita a influências  exteriores, a educação, hoje, é sobretudo mediadora. Sempre foi, mas hoje é mais. Um exemplo simples, sem tecnologia: Bancada central  a ver a Académica. O meu filho mais velho, na altura com sete ou oito anos, vernaculava um jogador  da casa. Um tipo na fila da frente vira-se e diz-lhe: Nunca  se insulta os nossos.
b) Aprende-se com os filhos, não se ensina só. Eu aprendi imenso e nestes quase trinta anos como terapeuta  conheci pessoas que também aprenderam. Aprendi a controlar certos aspectos do meu temperamento, confrontei-me com traços de caráct…

Terapia (13)

O TDHA diz-me bastante porque sofro de parte ( défice de atenção) dos critérios tal como estão descritos  no DSM -5. É por isso que sofrer  não está totalmente correcto. Aproveitar  fica melhor.
Se não fosse o meu défice de atenção, não conseguia passar  de uma velhota camponesa enviuvada para uma universitária urbano-deprimida com desgosto de amor , sem intervalo, quase sem respirar. Também é graças ao TDHA que consigo desligar de uma lengalenga e fixar-me num detalhe que a pessoa mencionou de raspão e que acaba por ser  crucial.

Tenho de ler três ou quatros livros ao mesmo tempo e não consigo concentrar-me num relato que minha mulher me faz, mas consigo fazer um treino completo memorizando cargas e repetições anteriores e na cozinha sou metódico até ao ridículo.
A ideia de que o TDHA é coisa de miúdos está a mudar. Muitos adultos perpetuam o distúrbio, mascarando-o de outras maladias. No meu caso, com  a preguiça e  a "cabeça no ar."

Canabis e guerra colonial

Aqui:
"Do pouco que os seus consumidores estão dispostos a falar,24 pode dizer-se que a canábis era usada na guerra de África como uma forma de ajudar a relaxar, “espantar o medo”, aliviar a ansiedade e escapar à angústia (Vardasca 2010) – que naquele contexto, de acordo com os testemunhos, assumiam uma dimensão colossal. Normalmente em associação com as bebidas alcoólicas, o consumo de canábis tanto podia ser feito em pequenos grupos como de forma isolada. Tendia a ser discreto mas não se tratava de algo propriamente secreto e / ou algo que, por si só, desse origem a castigos disciplinares".
Comparem com o álcool:
 “Outro problema que cá temos é o das quantidades astronómicas de cerveja que estes tipos bebem. Uma loucura! Muitos deles, quando chegam à cantina, em vez de pedirem uma cerveja, pedem meia grade! […] O seu tranquilizante é o álcool, é com ele que se sentem mais animados, é ele que lhes tira do pensamento os problemas […]. Devo tirar-lhes a bebida? Dev…

D. Francisco

Vi eu um dia a morte andar folgando por um campo de vivos  que  a não viam: os velhos, sem saber o que faziam, a cada passo nela ia topando. na mocidade os moços confiando, ignorantes da morte , a não temiam. Todos cegos, nenhuns se lhe desviam; ela a todos co dedo os vai contando.

 D. Francisco Manuel  de Melo, se fôssemos  ingleses ou franceses seria uma figura popular. Em filmes, livros, currículos escolares. Larger than life, preso pelos Filipes, preso pelos restauradores ( Sade também foi preso por dois regimes), exilado em Londres  e Paris, degredado para África. Depois, um estilo fínissino, variado, entre a poesia, a prosa, a memorabilia, a História etc.
O pedaço  acima transcrito é a abertura  de Apólogo da Morte ( in As segundas três musas). É  a morte que ele vai encontrando e, quando a morte  finalmente lhe dispara e erra, desafia-a. A morte responde-lhe:
Tal vai de guerra! Se vós todos  andais comigo cegos, que esperais que convosco ande advertida?

PSD ( 14)

A propósito desta  chamada de atenção de António Costa  ( o jornalista) e na linha de algumas coisas coisas que fui rascunhando nesta série:
Comentei o tuite de AC : os novos são velhos. Não há aqui nada de depreciativo, tão só apontei  a experiência  de muitos anos dos nomes referidos. A percepção de que o momento não é favorável é sábia. Menos  agradável é a possibilidade de aqueles nomes terem receio de avançar por serem colados ao governo de Passos.
O tempo traz a distância necessária, como constatamos hoje, Passos fez o que tinha de ser feito. Mentiu para ganhar as eleições ( um clássico), mas depois foi um bloco de gelo, como previu, numa líquida noite no meu terraço,  o  Nuno Mota Pinto. E  nós  não fomos a Grécia. Digo que constatamos hoje, porque a única diferença entre  a austeridade de Passos e a de Costa  é  a reposição de rendimentos . O SNS, as cadeias, o trabalho precário  ( turismo oblige), muitas coisas  se  mantêm,  apenas  longe da aberturas dos telejornais e com o…

Entre o álcool e a canabis: a questão cultural

A razão pela qual penalizamos a canabis e vendemos álcool sem restrições ( salvo  a da idade) é exclusivamente cultural, como explico aqui e também aqui. Aliás, qualquer estudo comparativo , em qualquer vector epidemiológico, é claro. Por exemplo, na condução:

Cannabis and alcohol acutely impair several driving-related skills in a dose-related fashion, but the effects of cannabis vary more between individuals than they do with alcohol because of tolerance, differences in smoking technique, and different absorptions of Δ9-tetrahydrocannabinol (THC),


Estou disposto a discutir o pressuposto culural, o que  dispenso é a ignorância e a charlatanice disfarçada de ciência.

O tempo irreparável ( 6)

Outra  ilusão encantadora é a  de que temos memória. Tanto não é nossa que a perdemos sem  aviso nas demências, bem como, quando  ainda existe, não nos segue qual podenga fiel.
A memória é um arquivo variado. Tem secções modernas cheias de tecnologia e departamentos húmidos e bolorentos  ao cuidado de um velho  de cahimbo. É por isso que às vezes estamos  bem dispostos e vem-nos uma recordação sombria e amarga. Noutras ocasiões, como diz o aforisma, prega-nos partidas. Noutras ainda, ficamos espantados como recordamos a mesma coisa de forma diferente  ao longo da nossa vida.
A memória é prima direita  do sonho: vive cá em casa, mas tem chave.

O tempo irreparável ( 5)

O sentido de tempo, ou, melhor, de duração, é adquirido quando somos bebés. Constrói-se através do intervalo entre o desejo e a satisfação. É por isso que, a certa altura, o bebé no quarto, ouvindo a mãe na sala a dizer  que já vai, suporta a fralda molhada ou a fome. Isto é consensual , desde os primeiros investigadores  ( Fraisse) da coisa até alguns psicanalistas ( Tustin,  Pollock etc). Dito de outro modo, ganhamos o   sentido de tempo  aprendendo a controlar a frustração.
Para o curioso destas coisas, isto coloca um problema: o que usamos quando sentimos que algo ( por ex, uma relação antiga )  está a acabar? Não desejamos necessariamente  que acabe, mas sentimos  que está a acabar. Ficamos  então frustrados porque a coisa não acaba de vez? Se sim, que mecanismo usamos? 
Talvez isto explique a paralisia emocional em algumas pessoas. Reagimos emocionalmente ao fim da relação ( tristeza, melancolia), mas também aguardamos , mais ou menos tranquilamente, que a coisa termine de vez …

O tempo irreparável ( 4)

Dizia Rousseau, respondendo aos críticos:  se o homem é naturalmente mau, as ciências só o  tornarão pior. Curioso  é Rousseau reconhecer que nem todas as ciências são salutares. Habita aqui o célebre princípio da corrupção. Pois bem, a ciência do tempo pode fazer-nos muito mal.
Um dos pressupostos malignos é o da apropriação. Tenho tempo. Não, não tens.  Ganhas  a lotaria, compras uma mansão, deixas de trabalhar. Tens o tempo todo para ti? O teu pâncreas  discorda e em breve  passas  a medir o tempo pela duração das sessões de quimioterapia .

Santana Lopes, o indesejado.

A primeira regra de Chotiner, conselheiro de Nixon, era: as pessoas não votam em alguém, votam contra alguém. É uma boa regra, até porque esse alguém não tem de ser uma pessoa. Pode também  ser uma ideia, uma ideia de uma ideia, uma situação.
Aplico isto aos comentários sobre  as eleições no PSD feitos por  gente da área da actual maioria ou, melhor dizendo, da plataforma de entendimento. O alvo é Santana e não Rui Rio. É fácil perceber porquê.
Se Santana ganhar, vai andar  quase dois anos a prometer tudo, a ouvir todos, a sorrir e abraçar  quem lhe aparecer pela frente. Os media  vão ser obrigados a mostrar  o tal emprego precário que afinal aumentou, as escolas degradadas, as macas nos corredores dos hospitais. É aterrador .
Santana, se ganhar, vai emular as presidências abertas de Soares, mas com o afecto de Marcelo. Não chegará para destronar  Costa, mas vai fazer mossa.

O tempo irreparável ( 3)

É potável a obsessão com o apagar das marcas do tempo no corpo. É uma indústria que se cruza com outra, a do turismo de massas: desconto senior /   spa, máscara de lama e banho de algas/ sinta-se jovem de novo. Nada a opor, cada um põe o dedo no dique como bem entende.
Outra possibilidade é ir com o tempo. Aceitar que uma relação veterana já deu o que tinha a dar, fazer as pazes com um amigo desavindo, mudar o óleo do motor  do carro na altura  certa. Quando nos despedimos de um amor num aeroporto,  damos um beijo e contemos as lágrimas; não fazemos sexo.

O tempo irreparável (2)

À medida que envelhecemos, todos nos queixamos: o tempo passa demasiado depressa. Parece  irreal porque o tempo medido é sempre igual. Não é nada estúpido, porque, por exemplo, o tempo de uma aflição é muito mais longo do que o tempo de um bom jogo do Benfica.
O nosso envelhecimento  reconhece duas categorias temporais: o que já gastámos e o que o pouco que nos falta. Um geriatra  espanhol costuma dizer que só ficamos velhos quando trocamos as ilusões pelas recordações. O osso é este: os avarentos defendem o resultado, os que envelhecem  bem disputam o jogo até ao último minuto do prolongamento.

O tempo irreparável ( 1)

Tinha  vinte  e três anos quando fui parar ao laboratório de psicologia clínica da Universidade Paul Valéry, em Montpellier. O chefe,  prof. Birouste, era um obcecado  pelas temporalidades. Ficou-me o vício por várias razões. Mal sabia eu de que maneira...
O título da série  deve-se à famosa passagem 3.824 das Górgicas, claro.